
Durante muitos anos, eu pensei que a minha história fosse apenas a história da minha família. Hoje compreendo que ela também se tornou a razão do meu propósito. Muito antes de conhecer os códigos, as leis e os tribunais, eu conheci a realidade de uma família que convive diariamente com um transtorno mental grave.
Sou filha de uma paciente com esquizofrenia paranoide . Cresci aprendendo que a saúde mental não diz respeito apenas ao paciente . Ela transforma a rotina da casa, modifica planos, desafia a esperança e exige que toda a família aprenda a viver um dia de cada vez.
Vi momentos de estabilidade, mas também presenciei crises profundas. Em uma delas, a doença comprometeu até mesmo a capacidade da minha mãe de se alimentar. Foram cerca de quarenta dias sem ingestão adequada de alimentos, tornando necessária a realização de uma gastrostomia para preservar sua vida. Os tratamentos medicamentosos já não produziam a resposta esperada, e nossa família precisou buscar novas possibilidades.
Foi nesse momento que compreendi algo que jamais esqueci: uma doença psiquiátrica pode atingir todo o organismo, toda a família e toda a estrutura de uma vida. Foi ali que o Direito deixou de ser apenas uma profissão que eu admirava . Ele passou a ser um instrumento de cuidado. Percebi que, quando a saúde mental entra em uma casa, ela também bate à porta do Direito. E que, muitas vezes, conhecer os direitos do paciente pode significar a diferença entre esperar e agir, entre desistir e continuar lutando.
A união entre Direito e Psicanálise
Essa experiência despertou em mim um propósito. Escolhi o Direito para defender pessoas. Mais tarde, encontrei na Psicanálise uma forma de compreender aquilo que nenhum processo consegue registrar por completo: o sofrimento, o medo, a culpa, a exaustão e, sobretudo, a esperança que permanece viva em tantas famílias. Hoje, compreendo que essas duas áreas não competem entre si. Elas se complementam .
O Direito me ensinou a defender direitos. A Psicanálise me ensinou a escutar pessoas. E a convivência diária com pacientes, familiares e profissionais da saúde - especialmente médicos psiquiatras mostrou que o verdadeiro cuidado nasce quando ciência, humanidade e Justiça caminham juntas.
Foi essa caminhada que também inspirou a elaboração do Projeto de Lei nº 251/2025, que propõe a criação do Programa Estadual de Apoio Psicossocial para Pessoas com Transtornos Mentais e seus Familiares . Esse projeto não nasceu apenas da minha atuação profissional. Nasceu da minha história. Nasceu da convicção de que nenhuma família deveria enfrentar, sozinha, os desafios impostos por um transtorno mental .
Nosso novo espaço
Talvez seja por isso que aceitei este convite com tanta alegria. Esta coluna não será um espaço apenas para explicar leis. Será um espaço para acolher dúvidas, compartilhar conhecimento e, principalmente, falar de pessoas .
Ao longo das próximas edições, vamos conversar sobre o direito à saúde, planos de saúde, SUS, autorizações de exames, medicamentos, tratamentos, internações, procedimentos de alta complexidade, decisões judiciais e os desafios que ainda cercam a saúde mental no Brasil. Também vou compartilhar histórias reais envolvidas, sempre preservando a identidade das pessoas, porque acredito que é por meio delas que compreendemos o verdadeiro sentido do Direito .
Você perceberá que muitos dos maiores obstáculos enfrentados por quem convive com um transtorno mental não estão apenas na doença . Eles também estão na burocracia, na desinformação, no preconceito e, muitas vezes, no desconhecimento dos próprios direitos. E talvez, na próxima edição, eu conte como um tratamento cercado de mitos mudou completamente a história da minha família e transformou, para sempre, a forma como passei a enxergar a saúde mental .
Se, ao final de cada leitura, você sentir que compreende um pouco mais os seus direitos, olhar para a saúde mental com mais empatia ou perceber que nenhuma família precisa caminhar sozinha, esta coluna já terá cumprido a sua missão. Seja muito bem-vindo.
Sobre
Larissa Pimentel
Advogada e Psicanalista, com atuação dedicada ao Direito à Saúde, especialmente na defesa dos direitos das pessoas com transtornos mentais e de suas famílias . Idealizadora do Projeto de Lei nº 251/2025, que propõe a criação do Programa Estadual de Apoio Psicossocial para Pessoas com Transtornos Mentais e seus Familiares . Foi Secretária-Geral da Comissão em Defesa da Vida da OAB e membro da Comissão da Pessoa com Deficiência da OAB . Acredita que informar, acolher e garantir direitos também é uma forma de cuidar .
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