
Dra. Sandra Fernandes — Médica Nutróloga.
Chegar ao segundo semestre sentindo cansaço pode parecer natural. Afinal, são meses acumulando trabalho, compromissos, noites mal dormidas, alimentação desorganizada e pouco tempo para cuidar de si. Mas existe uma diferença importante entre estar cansado e viver cansado.
O cansaço após um período intenso costuma melhorar com repouso e recuperação. O sinal de alerta surge quando a falta de energia persiste mesmo depois de uma boa noite de sono ou de alguns dias em ritmo mais tranquilo. Quando acordar cansado, ter dificuldade de concentração ou sentir queda importante da disposição passa a fazer parte da rotina, talvez seja hora de deixar de atribuir tudo simplesmente ao estresse.
Uma das estratégias mais utilizadas para enfrentar esse cenário é aumentar o consumo de café e energéticos. A cafeína pode melhorar temporariamente o estado de alerta, mas não trata a causa da fadiga. Em excesso, pode provocar palpitações, aumentar a ansiedade e prejudicar ainda mais o sono. Forma-se um ciclo: durmo mal, acordo cansado, consumo mais cafeína e volto a dormir mal.
A alimentação também merece atenção. Nosso organismo depende de uma série de nutrientes para produzir energia adequadamente. Uma rotina baseada em refeições feitas às pressas, produtos ultraprocessados, excesso de açúcares, gorduras de baixa qualidade e consumo frequente de álcool pode contribuir para a indisposição. Além disso, algumas deficiências nutricionais, como de ferro e determinadas vitaminas, podem estar associadas à fadiga.
"Fadiga não é diagnóstico; é sintoma. E sintomas precisam ser investigados dentro do contexto de cada pessoa."
Isso não significa, entretanto, que a solução seja começar a tomar vitaminas ou suplementos por conta própria. Fadiga não é diagnóstico; é sintoma. E sintomas precisam ser investigados dentro do contexto de cada pessoa.
Quando um paciente relata perda persistente de disposição, precisamos avaliar como está dormindo, o padrão alimentar, a prática de atividade física, o consumo de álcool, os medicamentos utilizados e a presença de outros sintomas. Dependendo do caso, pode ser necessário investigar anemia, alterações da tireoide, deficiências nutricionais e outras condições clínicas.
Em uma época repleta de soluções rápidas, é importante lembrar que nem toda fadiga será resolvida com vitaminas, estimulantes ou suplementos. Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono reparador e manejo do estresse continuam sendo pilares fundamentais para a saúde e a disposição.
Talvez uma das armadilhas da vida moderna seja termos aprendido a normalizar sintomas: dormir mal, comer correndo, trabalhar até tarde e depender de café para conseguir cumprir a agenda.
Se o cansaço permanece por semanas, não melhora com repouso ou começa a interferir na memória, concentração, trabalho e qualidade de vida, vale procurar avaliação médica.
Chegar ao segundo semestre cansado depois de meses intensos pode ser compreensível. Considerar a exaustão o seu estado normal não deveria ser.
Antes de buscar algo que forneça mais energia para continuar acelerando, talvez seja mais importante perguntar: por que meu organismo está tão cansado?
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