
Há uma coisa que aprendi observando as mulheres... bem, a mim em especial... mas talvez outras mulheres possam concordar comigo. Não é exatamente a beleza que nos move, mas a alegria de nos reconhecermos bonitas. E isso é uma coisa muito diferente. A gente se levanta, se prepara devagar. Escolhe um brinco, passa a mão no cabelo, ajusta a cor do batom como quem afina, ou afia, um instrumento. De minha parte, me ensinaram que o vermelho é para dias que nos demandam potência. Não é vaidade, ou pode até ser, mas daquela vaidade simples, sem peso, que tem mais a ver com carinho do que com aparência. É a forma que encontramos de dizer, para nós mesmas, que merecemos esse cuidado. E quando muitas de nós em algum momento para de fazer isso, deve ser um sinal de alerta que não deveria ser ignorado.
Ninguém escreveu regra nenhuma sobre isso. Ninguém precisou. Alguma coisa em nós sabe que o gesto de se “ajeitar” é antigo, é nosso, e pertence a uma ordem de coisas que acalentam. A mulher que se olha no espelho e sorri, mesmo um sorriso pequeno, quase secreto, está fazendo algo muito importante para si mesma. Ela está se reconciliando. Está dizendo: sim, posso gostar de mim hoje!
O ato de se olhar com ternura e reconhecer a própria beleza como gesto de autocuidado.
O curioso é que essa beleza que buscamos não tem nada a ver com o que estão vendendo lá fora. Não se trata de perfeição. Não é isso o que falta. É o que já existe mas que às vezes a gente mal consegue ver de tão pertinho que está. O que é ser maravilhoso é aquele tom de pele que o sol tocou, a marca de expressão que ficou de tanto rir, o jeitinho de inclinar a cabeça quando escutamos algo que nos toca. Tudo isso é bonito e tudo isso é nosso.
O que eu queria dizer hoje é algo simples, mas que talvez precise ser dito: não há frivolidade nenhuma em uma mulher que deseja ser bonita. Se trata da coragem de se olhar sem desviar e se tocar com a mesma ternura que derrama sobre os outros. Quando essa busca nasce deste lugar manso, deste querer estar bem na própria pele, ela deixa de ser vaidade e se revela como ato de cuidado. A mulher que se enfeita não está necessariamente pedindo nada ao mundo, ela pode estar apenas devolvendo algo que com frequência esquece que lhe pertence. A si mesma. Depois disso, por fim a felicidade consigo mesma nem precisa ser essa coisa tão distante e o espelho pode sim lhe devolver uma imagem que, enfim, ela consiga receber sem reservas.
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