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A cicatriz não é a história inteira: quando a tatuagem muda a cena

Carol Camurugy 09 de October de 2026 3 min de leitura

A cicatriz não é a história inteira: quando a tatuagem muda a cena

Às vezes, ela chega acompanhada de um cenário silencioso. Uma cirurgia, um acidente, uma doença, uma perda. Um período em que o corpo passou por alguma coisa que deixou uma marca visível, mesmo depois que a vida seguiu.

E, por muito tempo, aquela marca pode parecer ocupar o centro da cena.

Até que a cena muda.

A pessoa muda. O tempo passa. E, junto com tudo isso, pode mudar também a maneira como ela olha para o próprio corpo.

É nesse momento que a tatuagem pode entrar em cena.

Não necessariamente para esconder a cicatriz. Muito menos para apagar o que aconteceu. Mas para mudar o lugar que aquela marca ocupa dentro daquela história.

Porque ninguém deveria ser refém de um marco que ficou na pele.

A cicatriz pode continuar ali. Ela faz parte da história. Mas não precisa continuar sendo a protagonista.

Gosto de pensar que, em algumas histórias, ela pode até virar figurante. Continua presente, mas já não conduz a narrativa.

Existe uma frase que gosto muito e que traduz bem essa ideia: “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes.”

Porque existe uma diferença enorme entre carregar uma marca e ser definido por ela.

Uma cicatriz pode contar alguma coisa sobre o que vivemos, mas ela nunca vai conseguir contar tudo sobre quem somos.

E talvez seja justamente aí que começa a ressignificação.

Não quando tentamos apagar o passado, mas quando percebemos que ainda podemos escolher o que fazer com a nossa história daqui para frente.

Quando falamos em tatuagem sobre cicatrizes, é comum pensar imediatamente em cobertura. Em esconder. Em fazer desaparecer.

Mas nem sempre é disso que estamos falando.

Às vezes, a ideia é transformar.

Uma flor pode nascer sobre uma cicatriz. Um desenho pode acompanhar o formato de uma marca. Um elemento pode ocupar aquele espaço e fazer com que os olhos encontrem outra coisa antes de encontrarem aquilo que um dia trouxe dor.

A cicatriz continua ali.

O que muda é a cena.

E ressignificar não significa fingir que nada aconteceu. A história continua existindo. O corpo continua carregando suas marcas. Mas aquela região pode ganhar um novo significado.

Por isso, esse tipo de tatuagem começa muito antes da agulha.

Começa com uma conversa.

É preciso olhar para aquela pele, entender o tecido, o tempo de cicatrização, as características da cicatriz e, principalmente, ouvir a pessoa que está ali.

Porque antes de existir um desenho, existe uma história.

No meu trabalho com o projeto Ressignificando Cicatrizes, encontro muitas mulheres justamente nesse lugar. Mulheres que chegam querendo transformar uma região do corpo e, muitas vezes, acabam falando também sobre autoestima, liberdade, sobre voltar a usar determinada roupa, olhar no espelho ou simplesmente tocar aquela parte do corpo sem sentir vontade de escondê-la.

É por isso que algumas tatuagens carregam um significado tão diferente.

Elas não estão ali apenas para enfeitar.

Elas estão ali porque alguma coisa mudou.

Às vezes, a cicatriz permanece exatamente no mesmo lugar. Mas a pessoa já não se relaciona com ela da mesma maneira.

E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de ressignificar uma marca.

Não apagar o que aconteceu.

Não negar a história.

Mas permitir que aquela história deixe de ser o fim da narrativa.

A cena muda.

E talvez a cicatriz continue ali, no mesmo lugar, fazendo parte do cenário.

Só que agora ela já não ocupa o centro.

Porque algumas transformações acontecem na pele.

Mas as mais importantes, talvez, aconteçam na forma como a gente volta a se enxergar.

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